30 DIAS DE NOITE | A temporada de caça aos humanos começou

 

Por Rogério Christofoletti – Há algumas décadas, quando lia os quadrinhos do “Monstro do Pântano”, das safras Allan Moore, e Bissete & Totleben, eu me perguntava: como é que aqueles desenhos encharcados de cores berrantes me davam um medo ancestral? Na época, eu ainda relacionava medo ao escuro e às figuras sangrentas das páginas baratas de “Contos da Cripta”. Para mim, arrepiava a nuca aquilo que não se podia ver ou o que era repugnante, nojento.

O tempo passou e vieram “Motoqueiro Fantasma”, “Dylan Dog”, “Hellblazer”, “Spawn”, e só voltei a trincar os dentes pra valer com “Asilo Arkham”, quando Grant Morrison e Dave McKean me convidaram a entrar à noite num hospício lotado de criminosos. Não bastasse o roteiro delirante, tínhamos também uma arte que conseguia reproduzir a sensação perturbadora de que todos ali estávamos enlouquecendo. Foi arrebatador ver os personagens extrapolando os limites do requadro ao mesmo tempo em que víamos interferências gráficas que denunciavam colagens de materiais nos originais do desenhista. Rabiscos com caligrafias esquisitas criavam novas camadas de leitura, e a arte carregada de escuridão me levava de volta ao medo ancestral do mal que espreita das trevas.

Bons quadrinhos de terror precisam nos perturbar mentalmente e criar atmosferas que nos engolem. Funcionam como buracos. Foi assim com “Asilo Arkham”, e é disso que estamos falando quando temos nas mãos “30 dias de noite”, de Steve Niles e Ben Templesmith. Desta vez, não é preciso estar preso num hospital psiquiátrico para ser atacado; temos uma cidade inteira! E não se trata de uma noite qualquer, mas o tempo do medo também foi dilatado… Em Barrow, a cidade mais ao norte dos Estados Unidos, há um mês inteiro em que o sol nunca aparece. É inverno no Alasca e tudo fica em trevas totais, verdadeiro paraíso para quem não pode com raios solares. Não demora muito para que hordas de vampiros se desloquem até lá para fazer uma espécie de safári humano, num autêntico banquete sangrento de um mês.

 

Ágil, mordaz e cortante, o texto de Steve Niles não faz com que o leitor perca tempo. Em poucas páginas, já estamos entre os apavorados habitantes de Barrow atirando a esmo no escuro, certos de que estamos sendo atacados.

 

Templesmith, por sua vez, carrega nas tintas e faz do exagero o calibre grosso do seu pincel. A atmosfera é sufocante, mesmo que gelada. Os frames parecem habitados por vultos, e o sangue jorra como um oleoduto enfurecido. Há velocidade e silêncio, ação e brutalidade. Templesmith parece farejar as pegadas do mestre Bill Sienkiewicz, e seus desenhos são propositadamente sujos, como se tivessem sido feitos com um pedaço de carvão por um dos pretensos sobreviventes de Barrow. Seus vampiros têm olhares esbugalhados e as vítimas são frágeis como a crença de que vampiros existam de verdade…

 

 

Você pode não acreditar em bruxas, mas que elas existem… ah, existem! Assim como Barrow, a cidadezinha perdida no nada, onde tudo aconteceu. Barrow existe, mas mudou de nome em 2016, após um plebiscito local. Hoje, se chama Utqiagvik, e talvez a má fama trazida por “30 dias de noite” tenha influenciado essa decisão…

Publicada como minissérie nos Estados Unidos em 2002, “30 dias de noite” foi adaptada com honestidade para o cinema por David Slade. Quinze anos depois, a história foi reunida num único volume e celebrada como um triunfo dos quadrinhos de terror. É justamente esta edição que chega agora ao mercado brasileiro com a costumeira qualidade gráfica que a DarkSide Books dispensa aos seus lançamentos. Os três livros sobre os massacres em Barrow estão luxuosamente envolvidos numa elegante capa dura, num vermelho de tom próximo ao sangue coagulado e envelhecido. Entre as 368 páginas, há ainda um texto de abertura do cineasta David Slade e artes extras assinadas por Ashley Wood e Ben Templesmith. Pra completar, uma aterrorizante sobrecapa veste o volume, e você só vai descobrir sua razão lendo a obra…

“30 dias de noite” me devolveu parte do terror ancestral que há tempos não sentia. É envolvente e magnética, e eu devorei aqueles 700 gramas de papel como se estivesse sem beber sangue há décadas. Sentir medo é também sentir que estamos vivos. Ainda.

* Exemplar enviado pela Darkside Books.

 

SOBRE O LIVRO

Título: 30 dias de noite
Autores: Steve Niles (Autor), Ben Templesmith (Ilustrador)
Tradução: Paulo Cecconi
Páginas: 368
Editora: Darkside Books
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SINOPSE – Uma vez ao ano, em uma pequena cidade isolada chamada Barrow, no extremo norte do Alasca, nos Estados Unidos, o sol se põe e não nasce por trinta dias seguidos. Entre as esquinas macabras, becos escuros e uma espessa cortina de neve, criaturas milenares aproveitam os trinta dias de noite para atacar os moradores da cidade sem medo e reprimir sua insaciável sede de sangue. Esses vampiros não são bonitos ou sensíveis. São brutais, desprezíveis, cruéis ― animais que caçam e matam sem escrúpulos. Barrow é a cidade perfeita. Assim como na graphic novel Wytches, de Jock e Snyder, Steve Niles e Bem Templesmith criam uma releitura moderna de uma figura icônica na cultura pop e faz seus personagens ficarem a um passo do abismo na luta pela sobrevivência em uma cidade fria, escura, isolada e favorável a predadores impiedosos. Entre elaboradas cenas de ação brilhantemente retratadas na arte cheia de camadas e referências de Ben Templesmith, Niles constrói relações humanas intensas e poderosas em meio à um verdadeiro banquente sangrento. Diante da morte inevitável, muito se revela.

Rogerio Christofoletti

Jornalista, dramaturgo e professor universitário. Já publicou 12 livros na área acadêmica e escreveu oito peças de teatro. É um dos autores do e-book "Os Maiores Detetives do Mundo" (Chris Lauxx).

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Rogerio Christofoletti

Jornalista, dramaturgo e professor universitário. Já publicou 12 livros na área acadêmica e escreveu oito peças de teatro. É um dos autores do e-book "Os Maiores Detetives do Mundo" (Chris Lauxx).

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